“Cadeias” Alimentares

Poema de Mauro Hilário, lido pelo autor
Os necrófagos desorientados reclamam / Que não resta sequer um cadáver intacto.
Poesia · Mauro Hilário

Os necrófagos desorientados reclamam
Que não resta sequer um cadáver intacto.
Que há falta de nutrientes no tutano
Enquanto negam os factos no putrefacto.

Os herbívoros assustados mandam vir
Que não há esconderijos suficientes.
Que correm ao relento durante horas
De almas e corpos sempre salientes.

Os decompositores esquecidos exigem
Que não lhes contaminem os solos.
Que se têm olvidado da saúde pública
À margem dos mais recentes protocolos.

Os parasitas repudiados protestam
Dos seus alvos estarem em más condições.
E por muito que os olhem de lado,
Provam que não são eles os vilões.

Os polinizadores atarefados alertam
Que se anda a perder conectividade.
Que se os tempos assim continuarem
A beleza da floração tornar-se-á raridade.

Os produtores indignados reivindicam
Que há falta de gestão e de controlo.
Que por um valor se perdem valores
Até não haver motivos para consolo.

Os predadores esfomeados queixam-se
De que as presas se reproduzem pouco.
Atingir este nível trófico desequilibrado
É um conceito verdadeiramente louco.

Assim, todos às turras e em sofrimento
Sob o sofoco da partilha do problema.
Que a exploração e a degradação gradual
Fazem então ruir qualquer “Eco-sistema”.