Sempre disse para mim
Quando esta carreira escolhi,
Que ser biólogo não me define.
Mas de certo modo, menti…
Tento abstrair-me
Da ansiedade ambiental.
É que no âmbito global
Sou bisneto da revolução industrial!
Carrego comigo
A sombra do radicalismo.
Ironicamente,
Mais que o meu próprio baptismo.
Olho-me ao espelho,
Tento não meter-me nojo.
Que para ser feliz
A terra e o mar vão de rojo.
Pertenço a esta espécie parasita
Que parte do planeta incapacita.
Atenção que erros aleatórios
Diferem de erros propositados.
E com estes em somatórios
Estamos a ficar sobrelotados,
Com tesouros naturais estorricados.
Sou uma granada
A cair-lhe a cavilha.
Uma alma penada,
A converte-se em estilha.
Face à nossa pegada ecológica
E falta de lógica,
Sinto-me medíocre.
Para lidar com isto
Ainda não arranjei truque.
Faço como outros, sendo vulgar.
A poesia serve para erros divulgar
E a minha mente atenuar.
Um pagem da paisagem.
Como resisto a esse registo?
Onde está a cedência?
O meu carro e casa são provas
Da minha integração e complacência.
E dos meus muitos pares,
Não posso esperar celibato
Ou exigir sequer um ultimato…
De nós, continuam os rasgos,
E ao ar soltamos os engasgos.
Ao consumir sentimos os tragos,
Dos séculos de estragos.
Onde era serra cerrada,
Hoje a serra foi serrada.
O oficial passa a oficioso,
Com preçário no precioso.
A história em segmentos,
A inqueitude segue-me cegamente.
Não dá para voltar ao antigamente…
Quanto aos políticos de amanhã,
Isentos de corrupção
Certamente não o serão.
Vão erguer o seu castro,
E para todos, pesado vai ser o lastro.
Mesmo a cheirar a esturro,
Eu casmurro, ainda empurro.
Calar este alaúde infernal,
Levantar esta saúde mental.
Faço a contagem decrescente
Dum mundo pristino evanescente?
No futuro, o que será vigente?
Procurarei até atingir clareza.
Sendo (in)fiel à minha, nossa, natureza.